Papel de carta
Uma coisa que escrevi sobre cartas.
A carta é o meio mais íntimo que conheço.
Hoje me sinto com sorte por ter crescido em uma época na qual ainda se escreviam cartinhas na adolescência. Quando penso nas cartas que escrevia entre catorze e dezesseis anos, fico na dúvida se eu estava exprimindo meus sentimentos ou só espremendo uma espinha de romantismo adolescente. Eu falava coisas que nem sabia que sentia. Então talvez fosse tudo inventado. Talvez eu estivesse inventando sentimentos, os meus.
Não tenho as cartas que enviei essa época — não fazia cópia e nenhuma foi retornada. Guardei só algumas que recebi. Tem uma que são três papéis A4 coloridos colados um no outro, como um pergaminho. As declarações não tinham limite de caracteres.
As cartas de amor são compostas de coisas escritas para o destinatário — eu te amo, quero você por toda minha vida etc — misturadas com revelações da intimidade do remetente: hoje eu cortei o dedo descanscando um pêssego, por exemplo, ou quero fugir do colégio e pegar um ônibus que atravesse a fronteira com você. As revelações costumam ser as melhores partes.
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Em abril, fui à Itália com minha namorada. Comprei dez papéis de carta com envelopes na Il Papiro, uma papelaria artesanal de Florença. Foi a terceira vez em que estive na Il Papiro e comprei esse mesmo papel de carta, com a letra “G” no cabeçalho. (O hábito de escrever cartas acabou sobrevivendo por aparelhos nessas últimas décadas — por aparelhos, quero dizer por amor, saudade, medo do fim e de não dizer as coisas a tempo.)
Nas memórias que tenho dessas diferentes vezes em que estive em Florença, em momentos tão distintos da minha vida, a Il Papiro permaneceu viva, como se a papelaria fosse uma das coisas mais importantes a serem visitadas.
Muita gente que gosta de livros fala que visitar uma livraria em uma cidade desconhecida é como ir a uma igreja. É uma espécie de templo, para quem tem devoção pela literatura. A Il Papiro bate em mim de um jeito diferente das livrarias. Os livros são parte de uma indústria. O papel me lembra que a escrita é artesanal. É uma forma de desenhar com o alfabeto. Portanto, não seria um templo. No máximo, uma marcenaria que, em vez de fazer armários, faz papéis para guardar palavras. Gosto mais dessa metáfora, pois tira a literatura de um lugar sagrado. Afinal, usar uma caneta não é mais glorioso do que usar um formão para talhar madeira.
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De acordo com a Folha de S. Paulo, os Correios tiveram um prejuízo de R$ 3,16 bilhões no primeiro semestre de 2026.
Aparentemente, entregar cartas não é mais um bom negócio.
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A carta é de julho de 1976, cinquenta anos atrás.
É apenas um bilhete que minha mãe escreveu para meu pai para lembrá-lo de tomar o remédio para a tosse, Gotas Binelli.
Hoje seria uma mensagem de texto. Uma notificação na agenda. Mas, por ser uma carta, sobreviveu ao tempo e, com isso, ganhou tons de amarelo e outras camadas. É um bilhete tão simples, mas revela toda uma forma de amar.
Mesmo quando não tem a pretensão de ser, a carta é o meio mais íntimo que eu conheço. (E talvez a newsletter, em alguma medida, venha dessa linhagem.)
uma coisa que li
Penso que na base dos romances que escrevo existe essa sensação de liberdade e espontaneidade (ou melhor, desejo que essas sensações existam). Isso é a minha força motriz. Na raiz de todo e qualquer ato de expressão deve haver sempre uma alegria rica e espontânea. Originalidade, em outras palavras, nada mais é do que a forma resultante do impulso de querer transmitir ao maior número de pessoas essa alegria sem restrições, essa sensação de liberdade, da forma mais natural possível.
Talvez esse impulso franco se manifeste quando a forma e o estilo são adquiridos natural e espontaneamente. Não é algo que possa ser criado por meio de artifícios. Uma pessoa de mente afiada pode quebrar a cabeça e resolver diagramas complexos, mas dificilmente conseguirá criá-lo e, mesmo que consiga, provavelmente ele não será sólido. Será como uma planta cujas raízes não estão firmemente presas ao solo. Em época de seca ela logo vai perder o vigor, murchar e morrer. Caso chova um pouco mais forte, será carregada juntamente com a terra.
(Romancista como vocação, Haruki Murakami, traduzido por Eunice Suenaga)





amei demais esse texto! deu vontade de escrever cartas. bjs